Pela primeira vez nos últimos dez anos, a GE Money do Brasil será comandada por um brasileiro, Roberto Bronzere, que cuidava da área de financiamento de veículos. Bronzere acaba de ser nomeado presidente interino da GE Money. Ele substitui o checo Ivan Svitek, que presidiu as operações brasileiras por cinco anos e foi trabalhar no Home Credit Finance Bank (HCFB), da Rússia.
Não está definido se Bronzere será efetivado ou se a GE Money contratará outro presidente. Mas isso não inquieta Bronzere, 34 anos, há cinco na GE Money, que só está preocupado em "entregar o resultado que prometi".
Seus desafios não são triviais. A GE Money quer crescer orgânicamente 30% a 50% ao ano nos próximos quatro anos e buscar parcerias ou aquisições que complementem seu portfólio de produtos e ampliem seu espaço no mercado. Além disso, o executivo tem a missão de colocar o balanço no azul. "A idéia é virar o jogo", disse Bronzere.
Os investimentos pesados dos últimos anos na expansão fizeram a GE Money fechar no vermelho. O prejuízo foi de R$ 62,8 milhões em 2006, reduzido para R$ 12,3 milhões em 2007. No primeiro trimestre deste ano, o prejuízo atingiu R$ 6,4 milhões.
O sinal verde para as aquisições e parcerias foi dado pelo novo presidente da GE Money mundial, nomeado em fevereiro, William Cary, quando fez a primeira visita ao país no cargo, em abril.
Apesar de o grupo GE estar se reestruturando em várias partes do mundo e em várias áreas de atuação, a GE Money é um negócio em que pretende investir, especialmente nos mercados emergentes, de mais rápido crescimento, como o brasileiro. A GE Money fechou o balanço global de 2007 com ativos totais de US$ 211 bilhões, operações em 55 países e lucro de US$ 4,3 bilhões.
Na ocasião, Cary afirmou ao Valor que queria aumentar a dimensão da GE Money no Brasil, onde ocupa atualmente o lugar de 54º maior banco, com ativos totais de R$ 1,8 bilhão, carteira de crédito de R$ 1,6 bilhão, depósitos de R$ 1,4 bilhão e patrimônio de R$ 285,5 milhões, de acordo com dados de março do Banco Central (BC).
"O Brasil está no foco. Vamos aproveitar o momento em que o Brasil é um bom lugar para se investir", disse Bronzere.
Um dos novos negócios em que a GE Money quer entrar com parceria ou aquisição, disse Bronzere, é o mercado de crédito para empresas médias, o "middle market", para contrabalançar os momentos em que o mercado de financiamento ao consumo estiver desaquecido.
O executivo está ciente de que este é um negócio altamente competitivo nos dia de hoje, alvo não só dos bancos médios, tradicionais no negócio, e também cobiçado pelas grandes instituições varejo. "Para nós é um desafio estar competindo entre players de peso", afirmou.
Apesar de criada para financiar a venda dos eletrodomésticos fabricados pela General Electric, na época da grande depressão americana, a GE Money atua também no crédito para empresas médias em outras partes do mundo, exatamente por meio de parcerias, como a estabelecida com o banco colombiano Colpatria, do qual comprou uma participação minoritária de 39,3% por US$ 100 milhões e tem a opção de adquirir mais 10%.
Outros dois exemplos de parcerias de sucesso citadas por Bronzere são a estabelecida, em 2005, com a rede da América Central BAC/Credomatic, que opera em seis países da região (Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica e Panamá); e a da Turquia, com o grupo Dogus no terceiro maior banco do país, o Garanti Bank, com 5,8 milhões de clientes e uma rede de 450 agências.
A GE Money é também bastante ativa em aquisições. Neste ano, comprou por 800 milhões de euros um banco na Polônia, o BPH.
No mercado brasileiro, entrou há dez anos, por meio de aquisição, neste caso não bem sucedidas, com a compra do Banco Mappin e da financeira Mesbla, de olho no financiamento ao consumo das duas então poderosas redes de varejo, que vendiam juntas, na época, US$ 1 bilhão, 60% financiados. As empresas quebraram e a GE teve que recomeçar do zero. Em 2005, disputou real por real com o Bradesco a compra do Banco do Estado do Ceará (BEC), em 2005.
Agora, a GE Money já está em contanto com bancos de investimento , disse Bronzere, para definir quais são as alternativas de aquisição. Pode ser uma participação minoritária com ou sem possibilidade de assumir o controle. O passo seguinte será dar o mandato para os contatos efetivos e negociação. "Mas estamos dispostos a pular algumas etapas para agilizar o processo", disse Bronzere.
A GE Money também tem ambiciosas metas de crescimento orgânico que passam por passam por fechar o ano com ativos totais de R$ 2 bilhões e 95 lojas. As lojas vendem toda a gama de produtos. Mensalmente, são originados R$ 100 milhões em créditos. O funding é obtido no mercado interbancário, mas o banco pode lançar mão da securitização, por meio de fundos de investimento em direitos creditórios (FIDC) ainda neste ano.
Apesar dos sinais de desaceleração do crédito para a pessoa física e redução dos spreads, o banco está mantendo todas as linhas de crédito pessoal, consignado (funcionários públicos e aposentados), financiamento de veículos, cartões e crédito direto ao consumidor (CDC).
"Independentemente da desaceleração, há espaço para crescer no financiamento ao consumo do mercado brasileiro", afirmou Bronzere. A estratégia é forçar os produtos de maior rentabilidade. Mas o consignado, explicou, compensa com risco baixo as margens apertadas.
No financiamento de veículos, especialidade de Bronzere, algumas medidas de cautela já foram tomadas no início do ano: a idade máxima dos veículos usados financiados foi reduzida de 15 para 10 anos; e a relação entre o valor das parcelas e a renda do tomador foi diminuída de 30% para 20% a 25%.
Depois de se recuperar de uma inadimplência de 40% em sua carteira de "nano" empreendedores, o Banco Real acredita que conseguiu acertar a receita para ser tornar o maior agente de microcrédito do país em 2011. Com 70 mil clientes, o Real Microcrédito, lançado em 2002, tem planos de chegar a 100 mil até o fim do ano, passando dos R$ 72 milhões atuais para R$ 100 milhões em empréstimos concedidos.
Para isso, deixou de lado a estratégia de "metralhadora", em que se priorizava o crescimento rápido de clientes, para o do crédito solidário, um modelo já comprovado em outras partes do mundo. "A gente achava que dominava o negócio, e demos muito crédito individual. Agora só fazemos grupos solidários", afirma José Giovani Anversa, diretor da Real Microcrédito. Em 2005, quando sofreu o baque dos calotes, o programa tinha seis mil clientes. "O banco errou. Foi o preço da nossa aprendizagem."
A fórmula para minimizar riscos com esse novo perfil de empreendedor - que em sua maioria não possui conta em banco nem comprovante de renda - foi dividir a responsabilidade. O contrato é assinado por grupos de três a quatro pessoas, geralmente pessoas de uma mesma família, vizinhos e conhecidos. O empréstimo é concedido de acordo com a capacidade de endividamento do grupo e, por isso, a diferença entre o menor e o maior empréstimo não pode ser superior a 50%. A idéia é simples: no caso de um não honrar o pagamento, os outros cobrem.
Parece ter dado resultado. O lucro veio em novembro passado. E o trabalho dos agentes foi considerado fundamental para o sucesso do programa. A relação com o cliente é intimista, com visitas à casa, cafezinhos e muitas rodadas de conversa com a comunidade. "É um private equity às avessas", compara Giovani.
Sem documentos que comprovem o funcionamento do negócio, o agente extrai por meio de um questionário os dados fundamentais para fazer a análise de crédito. A parcela mensal não pode ser superior a 50% da renda disponível do cliente. O empréstimo médio é de R$ 1.100 e os clientes têm de quatro a nove meses para quitar a dívida. "No primeiro momento todos querem R$ 10 mil. Parece um número mágico", brinca o executivo. Mas aí entra o trabalho de orientação. "É preciso fatiar o sonho."
Com o novo plano de negócios, o Real Microcrédito pretende chegar, em 2011, a R$ 550 milhões e a uma carteira de 500 mil clientes. Cerca de 70% dos clientes dessa modalidade de crédito estão no Nordeste. O maior desafio é conquistar o Sudeste, sobretudo São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, onde a concorrência ainda é muito pequena. Hoje, o maior agente de microcrédito no Brasil é o Banco do Nordeste, que conta com pouco mais de 60 mil clientes apenas no Ceará e um total de 300 mil no país.
"Tem mexicanos e bolivianos querendo entrar [nesse mercado], mas os concorrentes ainda são pequenos, com apenas 2 mil a 3 mil clientes", afirma Giovani. "Há um enorme mercado: são 10 milhões de nano-empreendedores no país e nem 1 milhão deles está sendo atendido hoje."
Um dos lugares onde o Real Microcrédito tenta crescer é na favela de Heliópolis, em São Paulo. Ali, Jailson Nascimento dos Santos montou seu primeiro negócio, consertando e montando bicicletas. Ele conheceu o microcrédito por meio de um amigo e já está no seu segundo empréstimo. Foram R$ 1.500 para investir em peças. "Com mais dinheiro na mão, os preços das peças ficam mais atraentes", diz Jailson.
Com o grupo solidário, o Real Microcrédito derrubou a inadimplência para 6,5%. Um valor baixo se comparado à média do mercado de 7,3% no crédito pessoal e 14% no caso de financeiras.
"É mais fácil de pagar porque os juros são mais baixos e as prestações são mensais", diz Maria das Mercês de Sousa, costureira que captou R$ 1.500, a juros médios de 2,2%, para comprar tecidos e começar uma poupança para comprar uma máquina de costura melhor. As financeiras costumam cobrar cerca de 11% de juros e algumas trabalham com prestações semanais. "A que eu quero custa R$ 900", diz Maria Mercês de Souza.
Apesar do crescimento do Real Microcrédito, em seu sexto ano de existência, ele ainda é um "traço" no portfólio do banco, segundo Giovani. Nem por isso é considerado um negócio marginal. A intenção do banco é conquistar um mercado ainda incipiente, pouco conhecido, mas com grande capacidade de expansão.
Visa, Rendimento e Warner lançam "cartão presente"
Depois do forte crescimento dos cartões de crédito e de débito no país, sempre acima dos 20% ao ano, a bandeira Visa resolveu apostar no cartão pré-pago, que pode se transformar tanto em cartão para dar de presente (ou "gift card") quanto para empresas fazerem promoções e distribuírem o plástico ao cliente. Amanhã, a Visa, o Banco Rendimento e a Warner Bros. anunciam o lançamento de um cartão presente temático. Todos os plásticos terão desenhos do filme "Batman, o Cavaleiro das Trevas".
Chedid, da Visa: 67% das pessoas gostariam de ganhar um cartão assim
O objetivo é vender 50 mil desses cartões, que serão colocados no mercado no dia 18, data oficial do lançamento do filme no Brasil. Os plásticos terão valores de R$ 30 a R$ 1.000 e podem ser usados em 1,2 milhão de estabelecimentos credenciados pela bandeira Visa no país. Na operação de compra de um produto, funciona como um cartão de débito. O dinheiro que a pessoa não usar naquela compra fica como saldo no cartão e pode ser utilizado depois.
Após o Batman, o objetivo é lançar outros cartões temáticos, por exemplo, para datas como o Dia das Crianças ou o Dia dos Pais.
Os cartões pré-pagos ainda não decolaram no Brasil. Muito comuns nos Estados Unidos e Europa, poucos bancos se interessaram pelo produto. Eduardo Chedid, vice-presidente de produtos da Visa do Brasil, diz que uma pesquisa da bandeira feita no país mostra que 67% das pessoas gostariam de ganhar um cartão desses como presente. A maior vantagem, segundo os entrevistados, é poder escolher o produto que quiser e comprar onde e quando desejar.
Nos Estados Unidos, as pessoas que compram cartões para presentear, adquirem, em média, 4,8 plásticos por ano. Pesquisa feita lá no final do ano passado mostra que 95% das pessoas ou já compraram ou já receberam um "gift card".
No Brasil, Banco Rendimento, Banco Real e Banco Schahin estão entre os poucos que resolveram apostar em cartões pré-pagos. O Rendimento já emitia o "Visa Travel Money", cartão pré-pago que é carregado em dólar ou euro para ser usado nas viagens ao exterior. Já foram emitidos mais de 200 mil desses cartões. Agora, resolveu apostar nos "gift cards".
Segundo Abramo Douek, diretor geral do Rendimento, quando o banco começou a oferecer o cartão de viagem, ninguém conhecia o produto. "Hoje, já é mais conhecido." A expectativa de Douek é que o mesmo aconteça com o cartão presente.
A idéia do Banco Rendimento é lançar em seguida produtos alusivos a determinadas datas, como o cartão presente para as festas de Natal. O do Batman será vendido pela internet ( www.maisquepresente.com.br ) a partir do dia 18, além de alguns pontos em shoppings centers. O cartão custa R$ 5 e não pode ser recarregado. O cliente entra no site, escolhe o desenho impresso no cartão e faz o pagamento via boleto ou transferência bancária. O cartão é enviado pelo correio para a pessoa que foi presenteada. Por correio eletrônico, o cliente recebe a senha para fazer a transação.
A Visa também quer incentivar o uso do cartão pré-pago para empresas fazerem promoções. A rede de cinemas Cinemark lançou no dia dos namorados um cartão que custa R$ 55 e dá direito a seis sessões de cinema. Dependendo do horário e do cinema, essas seis sessões poderiam custar R$ 120 se a pessoa fosse pagar em dinheiro.
Forte aquecimento do mercado de cartões está atraindo novos bancos para o setor e provocando nova onda de investimento nas instituições já estabelecidas no mercado.
Nesse cenário, executivos que trabalham no setor estão sendo disputados a peso de ouro.
Itaú acaba de contratar Miltonleise Carreiro para a diretoria de cartões a não-correntistas e parceiros - vai cuidar das financeiras FIC e FAI.
Fernando Telles vai cuidar da área voltada para clientes.
Banco Safra contratou Mario Mello para cuidar da área de cartões e também das operações de crédito imobiliário.
Citi promoveu Leonel Andrade para presidente da Credicard Citi.
Banco Matone resolveu entrar nesse mercado: para montar a área, contratou José Tosi.
Novos presidentes também nos acquirers: Visanet contratou Romulo de Mello Dias e Redecard foi buscar Roberto Medeiros.
Integra
O forte aquecimento do mercado de cartões, que este ano deve crescer 24%, sexto ano consecutivo com taxa de expansão acima dos 20%, está atraindo novos bancos para o setor e provocando uma nova onda de investimento nas instituições já estabelecidas no mercado, como Itaú, Citi e Banco Safra.
O país deve terminar o ano com cerca de 500 milhões de cartões, incluindo os plásticos de crédito, débito e os de loja. Somente no primeiro semestre, foram emitidos 7 milhões de cartões de crédito, um recorde. O setor deve movimentar R$ 390 bilhões em 2008.
Em meio à forte competição por clientes, principalmente os da baixa renda, os bancos resolveram investir na área, uma das mais rentáveis para as instituições. Em média, sobre o valor de cada transação, é descontada uma taxa de 2,8%. Nesse cenário, os executivos que trabalham no setor estão sendo disputados a peso de ouro.
O Itaú acaba de contratar Miltonleise Carreiro. Vindo do Banco ibi (que pertence a rede C&A) e com 13 anos de experiência na Credicard, o executivo vai assumir a diretoria de cartões a não-correntistas e parceiros. O Itaú resolveu separar as operações de cartões e financiamentos para pessoas físicas em duas, uma para atender os clientes do banco e outra para os não-clientes.
Carreiro vai cuidar desta última, que engloba grandes operações, como a financeira que o banco tem em parceria com o Pão de Açúcar (chamada de FIC) e com a Lojas Americanas (FAI). "Minha missão é assegurar a liderança do Itaú no mercado de cartões" comenta o executivo, que está de férias, ainda em período de transição de um banco para o outro. Fernando Telles, que era presidente da FIC, vai cuidar da área voltada para os clientes do banco.
Quem também resolveu apostar forte no segmento é o Banco Safra. A instituição contratou Mario Mello, superintendente da área de cartões do Banco Real. Mello vai cuidar da área de cartões e também das operações de crédito imobiliário do Safra. Procurado pelo Valor, o banco informou que este ainda não é o "momento ideal" para comentar a aposta no mercado de cartões.
Outro banco que está mudando a área é o Citi, que promoveu Leonel Andrade, presidente de sua financeira, a Citifinancial, para a presidência da Credicard Citi. A base de cartões da administradora cresceu 50% em dois anos, passando de quatro milhões para seis milhões de unidades.
Já o Banco Matone, do Rio Grande do Sul, resolveu entrar nesse mercado. O banco começou no mês passado a montar a área, com uma contratação de peso. José Tosi, que era presidente da MasterCard, foi contratado para estruturar a área. Segundo Tosi, o objetivo do banco é buscar parcerias com o setor de varejo e lançar os cartões conhecidos como "híbridos" (plásticos com bandeira e que também levam o nome do banco e da loja).
Estimativa das administradora de cartões CSU CardSystem apontam que o mercado terá, em 2010, nada menos que 30 milhões desses cartões. "O crescimento do cartão híbrido será o dobro do resto do mercado", diz Décio Burd, diretor de relações com investidores da CSU.
O Carrefour é um dos melhores exemplos. A rede varejista francesa tem no Brasil uma parceria com a Visa. Só no primeiro final de semana de junho, foram emitidos mais de 10 mil cartões nas lojas (3,5 mil plásticos por dia). Outras redes, como a Riachuelo e o Ponto Frio, também resolveu entrar neste nicho.
A movimentação no setor de cartões não se restringe aos bancos. As bandeiras e credenciadoras de estabelecimentos também passam por mudança. A Visanet, que credencia pontos comerciais para a Visa, acaba de contratar um novo presidente, Romulo de Mello Dias. Com experiência no mercado de capitais, Dias deve preparar a empresa para lançar ações.
A Redecard, que credencia para a MasterCard, foi buscar no setor de telefonia seu novo presidente. Roberto Medeiros, que estava na Telefónica Empresas, foi escolhido no começo do ano para tocar a empresa. Segundo ele, desenvolver novos produtos para acoplar às maquinas leitoras de cartões é uma de suas metas. A outra é instalar as máquinas em novos tipos de estabelecimentos, como feiras livres, táxis e consultórios de médicos e dentistas.
O Brasil compra por ano 350 mil máquinas leitoras de cartões (chamadas de POS), equivalente a todo o mercado mexicano.
O Santander é o primeiro dos grandes bancos a oferecer o empréstimo pessoal com garantia do imóvel. Conhecido no mercado como "home equity" e bastante comum em outros países, a linha serve para financiar desde a compra de uma segunda casa, até os estudos dos filhos. Até agora, apenas bancos de médio porte tinham a modalidade.
O novo produto, chamado pela instituição de "Crédito Mais Conquista", funciona como um refinanciamento da moradia já quitada, semelhante ao que já é oferecido no mercado de veículos. A unidade permanece alienada em nome do banco durante a vigência do empréstimo e o cliente tem até 20 anos para pagar a dívida.
O Santander está de olho no segmento de renda alta, que já possui casa própria. Mira, também profissionais liberais e autônomos, já que a garantia pode ser de um imóvel comercial, desde que em nome de uma pessoa física. O cliente poderá tomar até 60% do valor do bem, a partir de R$ 20 mil até R$ 500 mil.
Ana Isabel Perez, vice-presidente de crédito imobiliário do Santander explica que o financiamento à habitação é estratégico para o banco e o lançamento de novos produtos faz parte do processo para ampliar a presença da instituição. "O crédito imobiliário no Brasil ainda está começando. O saldo é de R$ 51 bilhões. Queremos dar passos para ajudar a desenvolver esse mercado".
Ela conta que o produto tem bom desempenho em outros países em que o Santander atua, como Espanha e México, e está com boas expectativas para o Brasil. "Ainda não temos uma meta, mas sentimos que faltava esse produto no Brasil".
As taxas de juros variam entre 1,79% ao mês , para um empréstimo de cinco anos, até 1,83%, para o limite máximo, sempre prefixadas. "Para criar o produto, fizemos pesquisas de mercado e a demanda dos clientes era por parcelas fixas", afirma o José Manoel Alvarez Lopez, superintendente de crédito imobiliário do banco.
Diferentemente do financiamento imobiliário, em que os recursos para os empréstimos vêm da caderneta de poupança, no caso do Crédito Mais Conquista, a modalidade será alimentada pela própria da tesouraria.
O banco também lançou recentemente o financiamento imobiliário que usa como fonte de recursos dinheiro do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), mas por enquanto a oferta atinge apenas servidores públicos do Estado de São Paulo, com renda mínima de R$ 1 mil.
O total de fusões e aquisições no Brasil dobrou no primeiro semestre deste ano na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo a Thomson Reuters Markets. As transações anunciadas no primeiro semestre somaram US$ 49,572 bilhões, apenas 13% abaixo dos US$ 57 bilhões anunciados em todo o ano de 2007, que foi recorde. Para os analistas, tudo indica que um novo recorde será atingido neste ano. O movimento deve continuar forte no segundo semestre.
"A piora nas bolsas tem feito com que o mercado de emissões de ações deixe de ser alternativa e tende a fortalecer ainda mais as fusões e aquisições", diz José Olympio Pereira, responsável pelo banco de investimento do Credit Suisse no Brasil, que se mantém na primeira posição no ranking com dianteira importante. O banco esteve à frente de um total de US$ 32,142 bilhões em operações, com participação de 64,8%. "O mercado de capitais está muito ruim no curto prazo, mas os investidores estratégicos continuam interessados em projetos no Brasil e há muito dinheiro disponível de private equity."
Segundo ele, a consolidação de vários setores está apenas começando. Citou como exemplo a compra da Agra pela Cyrela, na qual o Credit Suisse foi assessor formal da Agra. "Participamos da primeira operação entre muitas que vão acontecer no setor imobiliário", afirma Pereira.
Perfil de endividamento das famílias está mudando.
Nos 2 últimos anos, mercado de crédito apresentou expansão das linhas mais baratas e alongamento dos prazos; mas, este ano, modalidades mais caras e curtas voltaram a ganhar espaço.
Saldo do cheque especial subiu 20% nos primeiros 5 meses do ano; rotativo do cartão de crédito, 16% - no mesmo período, estoque total de crédito para pessoas físicas subiu 9%.
Bancos ligaram o alerta: economia passa por momento de incertezas, de alta dos juros, e inadimplência para pessoas físicas teve pequena expansão por 2 meses seguidos.
Especialistas ainda não consideram a situação preocupante mas avanço do uso de linhas mais curtas e emergenciais é 1º sintoma de piora do ambiente do crédito.
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Começa a haver uma mudança no perfil de endividamento das famílias. Ao longo dos dois últimos anos o mercado de crédito apresentou uma expansão das linhas mais baratas e um alongamento dos prazos. No início deste ano, no entanto, com o aumento dos juros e os sinais de aceleração da inflação, as modalidades mais caras e curtas voltam a ganhar espaço.
O saldo do cheque especial, primeiro recurso dos endividados e visto como um dos vilões do sistema financeiro, subiu 20% nos primeiros cinco meses do ano, chegando a R$ 15,6 bilhões. Da mesma forma, o uso do rotativo do cartão de crédito já cresce a uma taxa de 16%, para R$ 19,9 bilhões. No mesmo período, o estoque total de crédito para pessoas físicas subiu menos, 9%.
Em relatório, Octavio de Barros, diretor de pesquisas econômicas do Bradesco, alerta para essa contribuição, "mesmo que de forma sutil", no crescimento anual do crédito. Ele pondera, entretanto, que apesar da "suave" aceleração no ritmo apresentado por essas linhas, elas são responsáveis por apenas 10% do estoque de empréstimos para pessoas físicas. "Grande parte da carteira é composta por modalidades mais saudáveis, fato que nos transmite tranqüilidade em relação à solidez da expansão do crédito".
Uma alta no uso dessas linhas no início do ano é relativamente comum, devido ao excesso de gastos de fim do ano e o acumulo de despesas nos meses iniciais. Mas, diferentemente de outros anos, o nível de endividamento do brasileiro nunca foi tão alto. Segundo dados do Banco Central, cerca de 80 milhões de pessoas tem pelo menos uma dívida.
Além disso, a economia passa por um momento de incertezas e de alta dos juros. Essas alterações, somadas a uma elevação, ainda que tímida, da inadimplência para pessoas físicas por dois meses seguidos, começam a despertar a atenção dos bancos. Os atrasos para pessoas físicas passaram de 7%, em dezembro, para 7,3%, em maio. No cheque especial, houve queda de 10,6% para 8,9% no período. Mas no cartão, a inadimplência do rotativo se aproxima dos 25% e está em alta.
Ademir Cossiello, diretor-executivo do Bradesco ainda não vê motivos para preocupação. "Ainda vemos uma condição estável da inadimplência. Os dados de 12 meses nos dão tranqüilidade". Em relação a maio do ano passado, a alta dos atrasos acima de 90 dias é de 0,1 ponto percentual.
Para Renato Oliva, vice-presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), por enquanto, essas elevações estão dentro do previsto. "Ainda não são preocupantes. Estão dentro da previsibilidade por conta da mudança do cenário econômico. A questão da inflação é mundial, não só do Brasil. É natural que haja um acirramento do aumento de juros".
Para ele, no entanto, ainda se espera uma situação um pouco pior do que a atual. Isso porque os juros futuros, negociados na BM&F e que servem de referencia para a precificação dos empréstimos, já aponta para patamares superiores. "A primeira conseqüência é o encarecimento do crédito e, depois, vem o aumento da inadimplência".
Oliva afirma ainda que as taxas futuras podem não estar apontando exatamente o que o BC espera. "Por conta da política gradualista de alta dos juros, com a qual concordo, não se pode ter certeza de aonde a autoridade monetária quer chegar com o aperto. O mercado especula que dois ou três aumentos sejam suficiente, mas há uma incerteza sobre aonde o BC quer chegar".
O banco JP Morgan também alerta para o avanço tanto do uso do cheque especial. "Essa expansão se dá em um tipo de empréstimo, cujas taxas superam os 157% ao ano", diz relatório da instituição. Mesmo altas, os juros dessa modalidade já subiram 19 pontos percentuais neste ano.
O avanço do uso dessas linhas mais curtas e emergenciais é o primeiro sintoma de uma piora do ambiente do crédito, relata Miguel de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). Ele pondera, no entanto, que a situação ainda não é preocupante.
"É fato que de certa forma a inflação aumenta os gastos e as pessoas começam a ter dificuldades para arcar com os empréstimos, mas ainda não acendeu a luz amarela nos bancos. Eles continuam com apetite para emprestar e com campanhas agressivas".
Toda vez que há uma elevação das taxas básicas de juro, há um impacto direto na renda, avalia Oliveira, pois sobra menos dinheiro para as famílias, tanto pela alta da inflação quanto do custo dos empréstimos. Em linhas mais curtas, como cheque especial e cartão de crédito, isso é ainda mais forte, pois as taxas podem mudar todo mês, ao contrário de empréstimos mais longos, como financiamento de veículos, cujas parcelas são fixas.
Segundo ele, os bancos estão mais seletivos por essa mudança no ambiente econômico e não pela alta da inadimplência. "Precisa esperar mais um ou dois meses para ver a tendência. Se ela se confirmar, os bancos podem passar de seletivos para restritivos".
Esse processo foi visto no fim de 2004, quando o Banco Central realizou um aperto monetário e a inadimplência da pessoa física passou de 5,9%, em julho de 2004, para 7,7% um ano depois. "Não tem jeito, as pessoas atrasam compromissos em período de alta de juros. Mas não acredito em aumento substancial da inadimplência dessa vez porque o aumento dos juros não será tão forte".
Num momento em que cresce no mundo todo a aversão ao risco, derrubando as bolsas de valores internacionais, no Brasil as aplicações em renda fixa acabam sendo beneficiadas pelo fluxo de dinheiro novo dos investidores. No primeiro semestre, os investimentos em Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) atingiram o recorde histórico de R$ 120 bilhões, refletindo a alta dos juros pagos por esses papéis. A remuneração chega a 100% do CDI, ou 12,25% ao ano, até para valores menores, a partir de R$ 1 mil. É muito mais do que o investidor ganharia em um fundo DI, que pagaria para esses valores 77% do CDI, ou 9,44% ao ano. Também as aplicações em poupança cresceram e atingiram R$ 2,59 bilhões no semestre.
Por trás dessa procura por renda fixa também está a expectativa de ganho maior com a alta das taxas dos juros básicos da economia, dos 12,25% ao ano hoje para 14% a 15% no fim do ano, o que puxou o ganho dos papéis mais longos. Soma-se a isso o aumento da incerteza em relação ao cenário internacional, com o receio de que a crise nos Estados Unidos piore e atinja as empresas e que os países europeus e emergentes tenham de segurar seu crescimento para deter a inflação.
A piora do cenário externo provocou uma onda de redução dos investimentos internacionais em bolsas. Ontem, o Índice Bovespa caiu 3,6%, para 61.106 pontos, o menor nível desde 31 de março. Em junho, as vendas líquidas dos estrangeiros na Bovespa somaram R$ 7,4 bilhões, o maior valor mensal da história da bolsa. No ano, a saída é de R$ 6,6 bilhões.
No entanto, a fuga da renda variável ainda está restrita ao investidor externo, afirmam gestores de recursos. "Sem esses saques, o mercado estaria estável, pois o investidor local está até comprando um pouco", diz Jorge Ricca, gerente-executivo da BB DTVM. A gestora acredita na recuperação do mercado brasileiro no médio prazo. "E essa recuperação pode ser tão rápida quanto foi a queda", afirma Alberto Monteiro de Queiroz Netto, presidente da BB DTVM.
Mudanças no Alto Escalão do Itaú Holding e GE Capital
Segundo apurou a Gazeta Mercantil junto a fontes do mercado, o Banco Itaú Holding Financeira contratou Miltonleise Carreiro Filho, vice-presidente do Banco Ibi para gerenciar a carteira de cartões de crédito de não correntistas, com aproximadamente 4 mil cartões. Na GE Capital, Ivan Svitek, executivo que comanda as operações no Brasil, assumirá a presidência de uma instituição financeira na Rússia. A subsidiária, segundo a reportagem, não se pronunciou a respeito do assunto.
Citigroup reorganiza comando das operações brasileiras
O Citigroup, maior banco norte-americano em ativos, está reorganizando o comando em postos-chave da atividade da instituição no Brasil. Gustavo Marin, presidente e CEO, continua à frente das operações, cargo que assumiu em 2006. Mas o segmento de varejo, tratado internamente pelo banco como "consumer", sai das mãos de Gilberto Caldart para as de Hugo Anversa, que acumulará a presidência do negócio com suas antigas funções como responsável pela área de "middle market". Do Credicard Citi sai também o seu principal executivo, Hector Nevarez. Leonel Andrade, presidente da CitiFinancial, também acumulará as funções. O superintendente-executivo de recursos humanos e assuntos corporativos do Citi Brasil, Henrique Szapiro, informa que a dança das cadeiras trata-se apenas de um movimento natural de uma empresa multinacional. São executivos de carreira internacional que, diz, em algum momento retomam essa rota.
No entanto, executivos com larga experiência no mercado, mas que preferem não se identificar, afirmam que a reestruturação na gestão já era um desejo de Marin desde que assumiu o comando da subsidiária, por causa, principalmente, da diferença de estilo entre ele e os executivos na busca por resultados. Ao que tudo indica, apesar da relutância da matriz, a reorganização é mesmo uma vitória para Marin. "O Gustavo Marin venceu", afirma um dirigente de uma organização concorrente. Szapiro, respondendo por Marin, diz que isso não existe. "Faz parte do desenvolvimento da carreira de nossos profissionais", afirma ele, ressaltando a importante participação tanto de Caldart como de Nevarez na estratégia de expansão do grupo no Brasil, implementada desde 2006 e que levou o Citi a um lucro de R$ 1,7 bilhão no ano passado, enquanto a corporação passava, e ainda passa, por baixas contábeis e prejuízos em decorrência da crise do subprime.
Caldart, segundo Szapiro, é prata da casa e está entre os mais cobiçados profissionais de carreira do conglomerado. O executivo informa que o Citi Brasil, em seus 93 anos de existência, tem sido referência na formação e envia um grande número de profissionais para fora, ficando atrás apenas da matriz. "Os executivos daqui chamam a atenção da organização por seus resultados e sucesso. Antes isso era tradicional, hoje é uma coqueluche." Atualmente, são 170 os executivos formados no Brasil que atuam nas mais diversas subsidiárias do Citigroup.
A companhia, contudo, ainda não definiu novos cargos e praças para Caldart e Nevarez. Szapiro afirma que Nevarez, de origem porto-riquenha, deverá até o final do ano ajudar na transição do comando, já que, por questões familiares, não poderá sair do País até lá. Com mais de 20 anos de empresa, ele é um expert na área de cartões e muito "disputado por outras subsidiárias", diz. "O Citi é o maior emissor de cartões de crédito do mundo. E ele em 2006 veio para isso, para tocar o processo de cisão após a compra da Credicard, em 2005", diz Szapiro, observando que Andrade, ex-presidente da Losango e contratado há menos de dois anos para incrementar os negócios do CitiFinancial, agora vai alçar vôos mais altos pelo trabalho que vem fazendo. "Há importantes sinergias nessas duas áreas, de cartão e financeira, e isso vai nos ajudar no novo ciclo do Credicard, que tem tidos resultados excepcionais, embora abaixo de quando adquirimos, mas bastante próximo." A companhia hoje está entre as cinco maiores emissoras de cartão do País, com quase 6 milhões de plásticos.
"Andrade é uma pessoa reconhecida e muito respeitada no ramo. Conhece bem o produto e poderá dar uma cara brasileira aos cartões do Citi", afirma Luís Miguel Santacreu, analista de instituições financeiras da Austin Rating, agência classificadora de risco de crédito, explicando que o executivo é um ganho qualitativo para a estratégia de crescimento do grupo no Brasil. "Essa reformulação mostra que algo não estava funcionando ou que o Citi quer que funcione melhor ainda. O grupo vem se posicionando bem no Brasil, está crescendo fisicamente, fazendo aquisições, o que mostra que tem interesse de longo prazo no mercado."
Szapiro informa que a intenção é justamente essa. "Com os novos executivos não se deve esperar mudanças radicais e sim a rentabilização da expansão do negócio, conforme os planos já desenhados." Ressaltou ainda que há mudanças em outros níveis, mas descarta demissões. "Em menos de dois anos, dobramos o números de funcionários para mais de 7 mil. Desde 2006, o grupo abriu 54 agências do Citibank e 84 do CitiFinancial. Na semana passada, anunciou a aquisição da corretora Intra, negócio avaliado em cerca de R$ 200 milhões.
O Bradesco pretende aumentar o número de agências a um ritmo recorde este ano e no ano que vem para manter um crescimento anual dos lucros de mais de 30%, em meio ao crescimento da concorrência.
A rede de 3.160 agências computada pelo banco no final do ano passado era 21% menor que a de seu principal concorrente, o Banco do Brasil. O Bradesco pretende gastar cerca de R$ 280 milhões para abrir 196 agências este ano e mais 154 em 2009, disse seu principal executivo, Márcio Cypriano, em entrevista concedida no último dia 24 de junho na sede do banco em Osasco.
Cypriano, 64, está expandindo o raio de ação do banco em todo o país para conquistar 1,7 milhão de clientes este ano, por meio do aumento de sua base de contas correntes a partir dos 18,8 milhões do final do ano passado. O investimento deverá ajudar o Bradesco a anular a diferença que o separa do Banco do Brasil, que registrava 26 milhões de contas correntes no final de 2007, e aproveitar o crescimento da economia brasileira, que está se expandindo ao ritmo mais acelerado dos últimos três anos.
"É possível manter o crescimento dos lucros enquanto pudermos aumentar nosso cadastro de clientes", disse Cypriano. "Precisamos expandir nossa rede para alcançar essas pessoas que estão ganhando mais". O Bradesco, o banco com o maior número de clientes com contas correntes depois do BB, visa alcançar pessoas que vêm ascendendo socialmente com o crescimento da economia. A meta de abertura de novas agências pelo Bradesco este ano supera o objetivo do Banco Itaú , o terceiro maior banco brasileiro em termos de ativos, de inaugurar 140 agências. No ano passado, o Bradesco abriu 152 agências, quase quatro vezes mais que o número de novas unidades inauguradas pelo BB.
O Carrefour, maior empresa de varejo da Europa, anunciou que o lucro operacional irá avançar quase no mesmo ritmo das vendas este ano, seis semanas depois de informar que os ganhos assim mensurados irão superar o ritmo do crescimento da receita. As vendas incluindo imposto sobre circulação de mercadorias, sem contar as flutuações na taxa de inflação, irão quase se igualar ao ganho de 7% do ano passado, considerando que não haja deterioração nos gastos do consumidor, diz a varejista com sede em Paris. Isso se compara com o prognóstico anterior de 6% a 8%. A estimativa foi feita um dia após o Carrefour anunciar um plano de mudança de nome de marca nos supermercados, que desapontou os analistas. A empresa disse que seu comunicado subsequente foi uma reação à queda das ações na quarta-feira, a maior desde 2002. O Carrefour informou no mês passado que as condições eram "mais difíceis do que o antecipado" na França, onde a confiança dos consumidores registrou uma queda recorde em junho.
O aumento do poder aquisitivo e o crescimento da comunidade fazem dos muçulmanos um dos mercados de consumo mais promissores do mundo
Wal-Mart: funcionários fluentes em árabe
No mês passado, o Wal-Mart inaugurou na cidade de Dearborn, nos Estados Unidos, sua primeira loja concebida inteiramente para atender o público muçulmano. O novo supermercado possui 550 tipos de artigos sob medida para esses clientes, como CDs de música árabe, cosméticos cuja fórmula não contém ingredientes proibidos pela religião (como gordura de porco) e carnes de animais que foram sacrificados segundo as regras sagradas do Corão. Na equipe de funcionários há 35 atendentes com fluência no idioma árabe. Ao inaugurar sua unidade islâmica, o Wal-Mart, empresa profundamente identificada com o modo de vida americano, tenta responder a uma expectativa de mercado. Dearborn, com 100 000 habitantes, está localizada em Michigan, estado que reúne uma comunidade de 500 000 seguidores do islamismo, uma das maiores concentrações de fiéis fora do Oriente Médio. A operação faz parte de um plano do Wal-Mart de criar pontos-de-venda que sejam capazes de estabelecer uma forte identificação com a comunidade onde suas lojas estão inseridas. "A orientação de marketing da empresa era muito padronizada. Isso não funciona mais", afirmou Bill Bartell, gerente da loja de Dearborn, em entrevista recente à revista americana Newsweek.
A estratégia é também a aceitação de uma realidade demográfica e cultural, com reflexos óbvios para negócios como o varejo. A comunidade islâmica -- com toda a sua particularidade de preceitos e comportamentos -- é uma das que mais crescem no mundo, e as empresas não podem ignorar isso. O McDonald's possui hoje no cardápio, em algumas de suas lojas nos Estados Unidos, vários itens especiais, como o McNuggets de frango halal, como são chamados os pro dutos permitidos pelo código muçulmano. Em sua loja localizada na cidade de Detroit, a rede de móveis Ikea mantém um restaurante típico, distribui catálogos em árabe e produz peças de decoração para o Ramadã, o principal feriado religioso do islamismo. Os serviços foram criados com a consultoria da Câmara de Comércio Árabe-Americana. Em 2005, a inglesa Tesco, segunda maior rede varejista do planeta (atrás apenas do Wal-Mart), introduziu produtos halal em 6% de suas lojas. Hoje, cerca de 30% de seus pontos-de-venda espalhados pelo mundo já oferecem esses artigos.
Um estudo recente da consultoria A.T. Kearney estimou que as vendas de produtos e serviços para esse público já movimentem 2 trilhões de dólares por ano (veja quadro). A alta de preços do petróleo multiplicou o poder de consumo da população do Oriente Médio e a comunidade cresce rapidamente não apenas nos países muçulmanos. Estados Unidos, França e Alemanha são exemplos de nações onde há um grande contingente de seguidores da religião. O número de muçulmanos está estimado hoje em 1,5 bilhão de pessoas -- o equivalente a 20% da população mundial. No ritmo atual de evolução demográfica, essa proporção deve chegar a 30% até 2025. "É um mercado com grande potencial, mas ainda pouco explorado", afirma Martin Walker, um dos autores da pesquisa da A.T. Kearney.
Negócio emergente
O mercado voltado para os consumidores muçulmanos é um dos que mais crescem no mundo atualmente. Conheça algumas de suas características:
Existem 1,5 bilhão de muçulmanos no mundo, o equivalente a um quinto da população mundial. Desse total, a parcela que mora em países mais desenvolvidos e que possui alta renda per capita cresce rapidamente
As vendas de produtos e serviços que seguem os preceitos do Corão totalizam em média 2 trilhões de dólares por ano
O mercado mundial para serviços financeiros que respeitam as regras do islamismo é estimado em 400 bilhões de dólares e cresce a uma taxa de 15% ao ano
Fonte: A.T. Kearney
A CONSOLIDAÇÃO DOS MULÇUMANOS como um mercado relevante está diretamente ligada à globalização. O fenômeno faz com que parcelas cada vez maiores dessa população passem a consumir produtos e serviços ocidentais -- desde que isso não implique desrespeitar os preceitos do Corão. Por causa dessa situação, as companhias são obrigadas a realizar uma série de adaptações. Um dos mercados mais complexos de atuação é o financeiro. Nos bancos voltados para muçulmanos há processos especiais de leasing, empréstimos e hipotecas, já que a cobrança de juros configura, no islamismo, o grave pecado da usura. Para não ferir o preceito, as instituições financeiras combinam com os clientes a margem de lucro que receberão por essas operações. Perdas e ganhos também devem ser compartilhados. Se uma empresa toma um empréstimo e tem lucro, os resultados são divididos entre as partes, e vice-versa. Por fim, é vetado investir em companhias envolvidas nos mercados de bebidas, fumo e jogos de azar.
O mercado mundial para serviços financeiros que respeitam as regras do Corão é estimado atualmente em 400 bilhões de dólares -- e cresce a uma taxa de 15% ao ano. Na carteira de serviços de instituições como HSBC, Citi, Barclays e American International Group já existem uma série de serviços voltados para clientes mulçumanos. De acordo com especialistas da JWT, quarta maior agência de publicidade do mundo, as empresas estão diante do mais promissor e inexplorado segmento de consumo. "Ignorar um mercado que representa 7 milhões de pessoas somente nos Estados Unidos é um erro tão grave quanto foi o de voltar as costas para os hispânicos, que só receberam a devida atenção das companhias americanas a partir dos anos 90", diz Marian Salzman, vice-presidente executiva da JWT.
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As financeiras já foram a única opção para os consumidores de baixa renda que precisavam de empréstimos. Hoje, perdem espaço para formas mais modernas de crédito, como os cartões e o consignado
A comerciante paulista Neli Maia: ela trocou a financeira pelo cartão de crédito
As operações das financeiras, instituições especializadas em conceder crédito à baixa renda, já foram o melhor termômetro da explosão do consumo popular no Brasil. As ruas dos grandes centros urbanos costumavam ficar apinhadas de funcionários de financeiras que abordavam quase todo pedestre para oferecer empréstimos. Há cerca de cinco anos, os financiamentos concedidos por essas empresas chegaram a representar 70% de todo o crédito pessoal do país. Hoje, porém, a situação é bem diferente: as financeiras praticamente desapareceram das ruas e sua participação de mercado diminuiu drasticamente, para 10%. Em meio a um mercado de crédito em plena expansão, essas empresas sofrem com a falta de clientes. A aversão dos brasileiros às financeiras ficou clara num estudo inédito concluído neste ano pela consultoria Roland Berger. Para as famílias que recebem de três a seis salários mínimos por mês, as financeiras são apenas a quinta opção na hora de buscar financiamento. Perdem para empréstimos bancários, cheques pré-datados, cartões de crédito e crediários de lojas.
O que afasta a baixa renda dessas instituições é um modelo de negócios que se mostra cada vez mais obsoleto num momento em que o mercado de crédito passa por uma de suas maiores transformações. As financeiras sempre ganharam dinheiro emprestando a quem não tinha acesso ao sistema financeiro tradicional — trabalhadores informais, sem renda ou sem documentos suficientes para passar no rígido crivo dos bancos, ou aqueles que acumulavam dívidas em outras instituições. O risco elevado desses clientes era compensado com a cobrança de juros altíssimos, que beiravam 10% ao mês. “Esse sistema funcionou bem no passado porque a maioria dos consumidores de baixa renda não tinha escolha”, diz Hilgo Gonçalves, diretor-superintendente da financeira Losango, do banco HSBC. “O cenário mudou recentemente, quando surgiram novas alternativas para esse público.”
A principal novidade foi a regulamentação do crédito consignado, modalidade em que as prestações são descontadas diretamente do salário do devedor ou — o que tem feito mais sucesso — das pensões recebidas da Previdência Social. Como o risco é pequeno, os juros são baixos: giram em torno de 2% ao mês. Apoiado principalmente na demanda dos aposentados do INSS (que recebem, no melhor dos casos, pouco mais de 3 000 reais por mês), o volume desses empréstimos aumentou mais de sete vezes, para 69 bilhões de reais, de 2004 para cá. Outra opção que tem feito sucesso entre a baixa renda são os cartões de crédito “populares”, especialmente aqueles que são fornecidos por lojistas. Atualmente, há 150 milhões desses cartões no país, ante os 97 milhões de cartões convencionais, segundo a Abecs, associação que representa o setor. Um cartão de crédito foi a alternativa de financiamento escolhida pela comerciante Neli Maia, que produz e vende artesanatos para decoração na Ceagesp, a central de distribuição de alimentos de São Paulo. Ela mantém distância das financeiras desde 2006, quando terminou de pagar as 18 prestações de um empréstimo de 5 000 reais. Com os juros, acabou desembolsando quase 11 000 reais para quitar a dívida. “Conseguir o crédito foi fácil, o problema foi terminar de pagar”, diz Neli. “Pode até acontecer de eu ter de cancelar uma compra no caixa porque o cartão está no limite, mas eu prefiro isso a ficar com um empréstimo que não termina nunca.”
Mais do que um revés para as finan-ceiras, essas mudanças são uma evidência de que o sistema brasileiro de crédito está se sofisticando. “Começa a se desenhar aqui um cenário que é realidade em países desenvolvidos”, diz Armando Gonçalves, especialista em finanças da consultoria Accenture. Em mercados mais modernos, só recorre a essas linhas caríssimas de empréstimos quem não tem acesso a alternativas mais vantajosas. Para as financeiras, porém, trata-se de um cenário perigoso. Além de perder parte de seus clientes, elas só atraem os piores devedores da praça, um mecanismo que a teoria econômica chama de seleção adversa. Como quem está com grandes dificuldades financeiras geralmente não consegue quitar sua dívida, a inadimplência nessas instituições é elevada — nas contas da Roland Berger, está em 22%, três vezes maior que a taxa média do crédito pessoal, por exemplo. “A alta inadimplência, aliada à falta de crescimento, tem prejudicado o retorno dessas empresas”, diz Rodrigo Dantas e Silva, diretor da Roland Berger. Segundo o estudo coordenado por ele, a rentabilidade média do setor em 2007 foi de 11%, metade da dos bancos.
Diante de tal realidade, as financeiras estão sendo obrigadas a mudar. Uma primeira reação foi começar a reduzir as perdas. Depois de abrir centenas de filiais entre 2004 e 2007, essas empresas estão fechando lojas. Com prejuízo de 124 milhões de reais registrado no ano passado, a Taií, financeira do Itaú, por exemplo, encerrou as atividades de quase 100 lojas entre o início de 2007 e março de 2008. A Finasa, controlada pelo Bradesco, seguiu o mesmo caminho. “Estamos depurando nossa operação para ficar com as filiais que são, de fato, rentáveis”, diz Paulo Isola, diretor executivo do Bradesco. Outra estratégia é se concentrar em nichos que cresçam mais e dêem mais retorno do que os créditos de alto risco. Em vez de emprestar diretamente à baixa renda, as financeiras vêm investindo em parcerias com varejistas, para financiar quem compra nessas lojas, e em empréstimos com garantias, como o financiamento de veículos e o próprio consignado. É o que vem fazendo a Finasa, que controla a operação de parte dos cartões de crédito dos clientes da Casas Bahia. Na Fininvest, do Unibanco, mais de três quartos da carteira de crédito já dependem de empréstimos consignados e acordos com redes de varejo, como Magazine Luiza e Ponto Frio. “A migração de produtos é clara”, diz Raphael de Carvalho, diretor executivo da Fininvest.
A Losango, do HSBC, foi mais longe e colocou em andamento um plano cujo objetivo é criar um “minibanco para a baixa renda”, segundo Hilgo Gonçalves, diretor da empresa. No fim de 2007, a Losango criou uma conta corrente simplificada para os mais pobres, cujo depósito mínimo é 15 reais e a movimentação só pode ser feita por cartão de débito. “Com isso, passamos a conhecer o fluxo financeiro dos clientes, o que funciona como uma espécie de comprovação de renda e ajuda a conceder limites de crédito”, diz Gonçalves. As agências desse novo banco funcionam, principalmente, nos varejistas com os quais a Losango tem parceria, como as redes Insinuante e Ricardo Eletro. E ficam abertas aos sábados, até a hora do almoço. “O horário mais flexível faz diferença para esse consumidor”, diz Gonçalves, que planeja lançar uma linha de financiamento de veículos e um seguro de automóvel para a baixa renda nos próximos meses. “Tivemos de nos adaptar.” Se antes eram os consumidores de baixa renda que precisavam se adequar às poucas opções de crédito existentes no mercado, hoje são as instituições financeiras que começam a mudar para conquistar esses clientes.
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Nunca os brasileiros consumiram tanto ? e isso ajuda a explicar o bom momento do país. Mas os indicadores mostram que é preciso arrefecer o consumo, sob pena de a inflação dar um novo salto
A professora Paola dos Reis aproveitou a tarde do sábado, 21 de junho, para realizar um antigo sonho. Depois de duas horas de angústia e muita conversa com o namorado ao telefone, ela decidiu comprar seu primeiro automóvel zero-quilômetro, um Celta 1.0 com poucos acessórios, numa feira de venda de carros em São Caetano do Sul, no ABC paulista. A decisão implicará uma dura rotina financeira nos próximos anos — se tudo correr bem, em junho de 2010 ela pagará a última das 24 parcelas do financiamento. Até lá, quase metade do salário que recebe de uma escola particular de São Caetano do Sul estará comprometida. É, de longe, a maior dívida de sua vida, mas ela já planeja a próxima. “Ainda quero comprar meu apartamento, mas terá de ficar para depois”, diz Paola. “Sei que vou ficar pagando prestações por muito tempo, mas só assim dá para melhorar de vida.”
Decisões como a de Paola — e de milhões de pessoas que, como ela, estão aproveitando o bom momento econômico do país para experimentar as delícias do consumo — estão por trás dos sucessivos recordes de produção e vendas da indústria brasileira. A queda dos juros e o alongamento dos financiamentos dos últimos anos colocaram no mercado uma massa nova de consumidores, estimada em 24 milhões de pessoas, que estão fazendo a festa de montadoras, construtoras e fabricantes de eletroeletrônicos, entre outros. “O mercado está extremamente receptivo”, diz Wagner Rezende, sócio da Incons, construtora e incorporadora paulista voltada para o público de classe média e baixa. “As pessoas estão confiantes que vão manter os empregos, e isso é vital num mercado de financiamento de longo prazo.” No setor de roupas, os varejistas contabilizaram vendas 12% maiores no Dia das Mães deste ano em comparação com o anterior. “Foi um resultado excelente”, diz Sylvio Mandel, presidente de uma associação que reúne grandes redes de lojas.
Tamanho frenesi virou o principal objeto de apreensão de economistas e das autoridades de Brasília. Segundo o Banco Central, o número de pessoas com dívidas superiores a 5 000 reais aumentou quase 50% em apenas dois anos. Começa a se generalizar a percepção de que o consumo está andando bem à frente da produção, e que esse desequilíbrio inevitavelmente vai agregar mais pontos aos índices de inflação. Pela primeira vez no ano, o levantamento feito pelo BC com analistas de bancos, corretoras e consultorias mostrou uma expectativa de inflação superior a 6%. Já há quem trabalhe com um número próximo de 7%, acima, portanto, do que o governo julga “aceitável” — a meta oficial é 4,5%, com dois pontos de tolerância. Não é um cenário de crise — longe disso. Antes do Real, instituído há apenas 14 anos, muitos economistas viam como razoável a convivência com uma taxa de inflação de 25%. Estavam evidentemente errados, como demonstra a saudável preocupação com uma taxa anual que nem sequer se aproxima dos dois dígitos. Mesmo infinitamente longe da loucura inflacionária do passado — e mesmo considerando-se que parte do aumento dos preços segue uma lógica internacional —, o cenário merece cuidado pelo fôlego que a inflação vem demonstrando. “Não há mágica na economia: se todos querem consumir além do que produzimos, ou importamos mais ou teremos inflação”, diz o economista Sergio Valle, da consultoria MB Associados. “O que estamos vendo hoje é uma combinação preocupante das duas coisas.”
Fundador da gigante do software se aposenta nesta sexta-feira e deixa um legado de inovação na indústria de tecnologia. Microsoft, porém, não vive sua fase mais vibrante
Foram mais de 30 anos à frente da maior empresa de software do mundo. Criador de um império de cerca de 50 bilhões de dólares, 78 000 funcionários em 105 países, Bill Gates deixa o dia-a-dia da Microsoft nesta sexta-feira (27/06), seguindo os planos de aposentadoria que anunciou em junho de 2006.
Gates, como se sabe, vai se dedicar à Fundação Bill & Melinda Gates, criada há oito anos para atuar em projetos filantrópicos nas áreas de saúde e educação. O executivo, porém, permanece como presidente do conselho da empresa e continua envolvido em projetos definidos pelo CEO, Steve Ballmer, e pelo time gerencial da Microsoft.
“A saída de Bill Gates será mais simbólica do que efetiva para a empresa, ao passo que há dois anos ele já preparava uma transição bem sedimentada de comando para Ballmer. Mas sob o aspecto da presença dele no mercado de tecnologia esta é uma mudança e tanto. Microsoft é sinônimo de Bill Gates e vice-versa. Ele foi, sem dúvida, um dos homens mais influentes da segunda metade do século 20”, diz Laura Didio, analista-sênior e líder de pesquisas do Yankee Group.
William H. Gates II nasceu em 1955 em Seattle, estado de Washington. Filho de pai advogado e de uma professora universitária, descobriu a vocação para a programação de computadores aos 13 anos. Diz a história que ele desenvolveu seu perfil inovador a partir dessa idade e muitas vezes quando sua mãe o chamava para jantar junto com as duas irmãs ele respondia que “estava pensando”. Passava pela cabeça do jovem Bill formas de resolver jogos de estratégia, o que ajudou a desenvolver sua forma astuta de criar e negociar.
A disposição em aceitar os riscos – como aqueles dos jogos de estratégia da adolescência – continuou característica de Gates e tomou sua forma mais profunda quando ele decidiu abandonar o curso na Universidade Harvard para apostar em um projeto incerto e pouco palpável para a época: criar uma empresa de software. Foi na universidade, em 1973, que conheceu Steve Ballmer, o atual CEO da Microsoft, e desenvolveu uma versão da linguagem de programação BASIC para o primeiro microcomputador, o Altair 8800. Gates acreditou que ali existia uma oportunidade de negócio e dois anos depois, deixou Harvard para dedicar suas energias à novata Microsoft junto com Ballmer e com o amigo de infância Paul Allen.
Embora para muitos a decisão de deixar parecia absurda, a iniciativa de Gates se mostrou acertada três anos depois, quando a Microsoft faturou seu primeiro milhão de dólares. “Ele foi um dos primeiros a reconhecer que a programação de códigos poderia virar um negócio independente no futuro. Naquela época em que a Microsoft nasceu (1975), o software ainda era algo atrelado às máquinas em que rodavam. Gates acreditava que era possível criar um software para diferentes computadores em um momento em que a maioria pensava no contrário. É inegável que ele foi um dos principais impulsionadores da indústria de software”, afirma Paul Degroot, analista da consultoria norte-americana Directions on Microsoft, especializada na empresa.
A habilidade de Gates negociar com parceiros também foi fundamental para a história de crescimento da Microsoft, a começar pelo contrato fechado com a IBM, em 1981, que resultou na inclusão do sistema operacional MS-DOS 1.0 nos PCs da empresa. Ao longo do tempo, parcerias com praticamente todos os fabricantes de computador do mundo todo para embutir o sistema operacional Windows em suas máquinas deram à Microsoft liderança absoluta, que hoje detém 90% desse mercado.
Um homem, uma cultura
Bill Gates nunca foi um show man. Embora seu nome por si só já movesse legiões de aficionados por tecnologia para suas palestras – especialmente por sua genialidade e pelas contribuições inovadoras da empresa que criou –, nunca foi o mais carismático entre os presidentes de empresas de TI. Sempre manteve o perfil “geek” de sempre, ou seja, do garoto de poucas palavras fanático por descobrir o que há de novo em tecnologia.
Mas essa falta de espírito pop-star, característica de outros nomes da indústria como Steve Jobs, da Apple, ou Larry Ellison, da Oracle, em nada atrapalhou a construção do espírito Microsoft entre seus funcionários. A disseminação do espírito de busca pela inovação, que é o que Gates atribui à Microsoft, veio não apenas por marketing interno, mas pelo exemplo de que é possível chegar a essa inovação com a mão na massa.
“Bill Gates poderia ter se aposentado ou se afastado há muito tempo do dia-a-dia corporativo. A Microsoft é uma empresa auto-sustentável e lucrativa e não havia necessidade de ter a presença do executivo todos os dias. Mas ele queria e fazia isso por prazer, acreditava que inspirava os engenheiros”, diz Degroot.
A Microsoft foi uma das primeiras empresas a também adotar o modelo de opções de compras de ações para os funcionários. A companhia abriu o capital em março de 1986 e o boom no mercado de software resultou em valorização expressiva nos papéis ao longo do tempo, suficiente para enriquecer boa parte deles. No entanto, seguindo o modelo de Gates, a maioria preferiu permanecer na empresa.
“Costumamos a dizer que em 1999 a Microsoft era uma das empresas com maior número de voluntários do mundo, ao passo que já era grande o número de funcionários que estavam ricos por causa das ações, mas que trabalhavam por acreditar que a empresa poderia atingir mais. Bill Gates tem papel fundamental nisso”, complementa.
Fase de transição
Em um vídeo apresentado na última feira Consumer Electronic Show, em janeiro desse ano em Las Vegas, Bill Gates apresentou um vídeo divertido sobre como seria seu último dia na Microsoft e sobre seu futuro como aposentado. Diversas personalidades, de Bono Vox, vocalista do U2, ao cineasta Steven Spielberg e ao candidato democrata Barack Obama participaram do vídeo estimando como seria o momento de Gates deixar o dia-a-dia da corporação (clique aqui para assistir).
Mas o cenário divertido do vídeo de homenagem não reflete exatamente a realidade da Microsoft, neste momento em que Bill Gates deixa a companhia. A Microsoft acaba de sair de um processo desgastante e falho de compra do Yahoo, por cerca de 48 bilhões de dólares e tem se debatido para acelerar suas iniciativas na área de internet, onde enfrenta o pesado concorrente Google. Além disso, o modelo de software como serviço, em que o usuário paga uma assinatura mensal para acessar seus programas via internet, desafia a venda de licenças, pelo qual a internet enriqueceu.
“Nesse momento em que o navegador de internet é computador, a Microsoft precisa se reinventar É um dos momentos de maior fragilidade pelo qual a empresa já passou”, diz Adam Braunstein, analista sênior da consultoria norte-americana Robert Frances Group. O Microsoft Office Live, pacote de produtividade que a empresa ofereceu no modelo de assinatura e fornecimento via internet é o primeiro passo para a empresa nessa área, que nem de longe está perto de pioneiras nesse modelo, entre elas a Salesforce.com, que inaugurou praticamente a cultura do software como serviço com seus sistemas de gestão de relacionamento com o cliente.
Além da concorrência com o Google e do desafio de se consolidar nessa era em que a internet ganha importância considerável no dia-a-dia do usuário, a Microsoft tem como desafio continuar inovando em seus próprios softwares. O tão aguardado Windows Vista, lançado em 2006, não conseguiu emplacar tanto por aspectos técnicos – como a grande demanda por hardware – quando por não trazer atrativos suficientes para desbancar seu antecessor, o Windows XP (leia mais aqui). É tarefa para a Microsoft como conseguir sendo ícone em inovação em software, dizem os especialistas.
Aspectos de sucessão também recaem sobre a empresa. Neste momento em que a Microsoft se questiona por quais caminhos deve seguir para sustentar suas receitas, questiona-se também se Steve Ballmer é o melhor para liderar a companhia e dar o fôlego inovador que a empresa necessita. A amizade de Ballmer e Gates tem mais de 30 anos, praticamente a duração da Microsoft e todas as decisões estratégicas sobre o rumo da empresa deverá continuar sobre o crivo de Gates, que continua como presidente do conselho. A impressão que se tem é que muito pouco vai mudar se Ballmer continuar como CEO.
São poucas as respostas que existem para tamanhas dúvidas sobre o futuro da Microsoft. A empresa continuará dominando o mercado de sistemas operacionais daqui a dez anos? Conseguirá melhorar o posicionamento no mercado de internet? Não há exatidão em qualquer uma dessas questões. O que se sabe é que não são poucos os desafios e que, mais do que nunca, as circunstâncias o mercado, a importância da internet e as necessidades dos usuários começam a incomodar o gigante, que muito tempo caminhou sossegado.
Depois de recuperar a Brasil Telecom, altos executivos da empresa começam a deixar seus cargos — um processo rotineiro em empresas compradas, mas nem sempre sadio
Ricardo K, da Brasil Telecom: ele fica até o fim
Quando foi designado para comandar a Brasil Telecom, em meados de 2005, o executivo Ricardo Knoepfelmacher inspirou-se na estratégia militar para enfrentar os problemas da companhia. Apaixonado pela Segunda Guerra, Ricardo K, como ficou conhecido, batizou a operação de salvamento da empresa de Projeto Omaha, em referência ao sangrento desembarque das tropas aliadas nas praias da Normandia, no norte da França, em 1944. O plano previa um ataque em oito frentes — uma operação minuciosa que Ricardo K e seus executivos planejaram por 100 dias. Quando o processo terminou e a companhia voltou à sua atividade normal, o presidente continuou portando-se como um general em guerra, batizando as novas estratégias da empresa com nomes de outras batalhas militares. Dois anos, seis meses e 26 dias depois de ter assumido o comando da Brasil Telecom, Ricardo K deparou com uma dura realidade: chegou a hora de bater em retirada. No dia 25 de abril, a venda da Brasil Telecom para a Oi foi fechada e, com ela, foram bombardeados seus planos de assumir o comando da supertele. O escolhido para o posto foi Luiz Eduardo Falco, presidente da Oi. “Vou ficar até a entrega das chaves. Depois, volto para a Angra Partners”, disse Ricardo K a EXAME, referindo-se à empresa de investimentos que ele criou com outros sócios em 2003.
A resignação de Ricardo K, contudo, não é compartilhada pelo restante do alto comando da Brasil Telecom. Antes mesmo de a compra da empresa ser sacramentada, o que ainda depende de mudanças nas regras para o setor de telecomunicações, dois diretores que ocupavam posições-chave na hierarquia da Brasil Telecom já deixaram a companhia. Fábio Moser, então vice-presidente de governança corporativa, aceitou o convite da Previ para dirigir a área de investimentos do fundo dos funcionários do Banco do Brasil. Samuel Saldanha, ex-diretor de operações financeiras, vai ocupar o cargo de diretor executivo financeiro na Cibe, o braço de infra-estrutura do Grupo Bertin, um dos maiores do setor brasileiro de carne. A expectativa é que outros membros do alto escalão, que inclui quatro vice-presidências e dez diretorias, também deixem a companhia nos próximos meses. Muitos já vêm se movimentando em sigilo e pessoas próximas ao dia-a-dia da Brasil Telecom apostam que apenas o vice-presidente de operações da empres